cozinhar, desenhar, cuidar do jardim, escrever, compor, fazer faxina. ofícios solitários. ensaiar com um grupo de teatro é algo singular. todos sob o domínio da mesma milonga: estrear sem vomitar ou cagar nas calças, passar a mensagem e contar a história da maneira mais clara possível. quando tudo funciona: texto, direção, elenco, técnica e público é algo único, tipo encontrar uma mina de ouro nas margens de uma praia deserta de um harém. Ou tocar ao vivo no CBGB. O teatro é uma máquina. a pressão é assombrosa. entrar em cena depende de vários detalhes e aflições sincronizadas. quando o técnico coloca a trilha e abre o foco sobre seu personagem, e aquele resquício de luz te mostra a silhueta dos espectadores arregalados te encarando. isso é arte bruta. E numa ressaca moral vc entende que precisa deixar um pedaço seu ali no palco para justificar a presença, o bilhete e a paciência do público. afinal, como diz Domingos de Oliveira, não é um livro que vc fecha no fim do capítulo ou um filme que vc pausa pra mijar. eu sentia algo assim quando me apresentava com o Cemitério de Automóveis. uma lenda desengonçada cambaleante em cena. Uma fruta esmagada. Um pássaro atropelado. Isso me alimentava. As lembranças ainda me alimentam. hoje sou apenas um rumor, isolado na mesa cozinha entre folhas brancas e músicas antigas em loop. 

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