a praga

faz pouco mais de um mês que apareci aqui expondo alguns planos. Praticamente nada saiu no esquema planejado. Eu fiquei limpo por algum tempo, `cai na estrada e dirigi por mais de 4000km. Chuva sol asfalto e mar. Foram dias que vou guardar na memória. Acontece que sempre temos que acordar enquanto estamos sonhando. 
A peste, a praga, a nova epidemia surgiu exterminando as pessoas. Ninguém está imune. Ainda estava na Bahia quando apareceram os primeiros infectados no Brasil, justamente na Bahia, numa festa de casamento de paulistanos abastados. Entre dias de sol e moquecas e noites encharcadas de álcool acabei fumando um beque com um sujeito boa praça que já conhecia de uma visita anterior. No dia seguinte, descobrimos que ele estava trabalhando com uma cantora infectada que estava no casamento. Voltei com minha garota pra sp drama com a cabeça mergulhada em paranoias. Imaginava que já estava infectado, afinal eu tinha compartilhado meu copo e meu beque com o cara, que aquela altura já estava gripado e fazendo o teste de COVID-19. O vírus fica encubado por até 14 dias no corpo. E naquela altura eu já não sabia se estava doente ou numa ressaca mórbida sob o sol inclemente do nordeste. Atravessamos o sul da Bahia, Minas Gerais e chegamos em São Paulo depois de 29 horas de estrada em dois dias. 
Já na capital descobri que meu irmão era um dos 200 primeiros infectados oficialmente no Brasil. O pânico se instalou. O isolamento da cidade foi estabelecido e as ruas esvaziaram num sopro. Eu, como asmático paranoico inconsequente, logo me abasteci de uma pacoteira de estupefacientes. Na maioria derivados da maconha: colombinha, skunks Rainbow e Lemon, dry chocolope, ice 24 kilates e uma cera californiana alaranjada que chamam de wax, se não me engano – não sei nem como fuma essa merda, mas custa um rim. Fora a herô, parceira de isolamento. Nesses dias descobri também que meu estilo de vida tem nome: quarentena. Estou há duas semanas enclausurado e nem um pouco incomodado com isso. Dizem que uma seca que tchaz assola a cidade. Amigos me mandam mensagens pedindo ajuda. Em alguns casos consigo descolar alguma coisa. Mas algo me diz que o mundo não será o mesmo daqui em diante. Esses caipiras fundamentalistas que estão no poder vão fundar cada vez mais essa joça podre. Sempre fui grupo de risco. O que me preocupa é o poder de contágio do coronga. Ainda não chegamos ao pico da epidemia e nem quero imaginar a quantidade de vidas que ela ainda vai ceifar. Ir a mercado virou algo similar a enfrentar uma horda de zumbis invisível que pode te contaminar em qualquer esquina. Eu vou tentar mais uma vez encarar a estrada. Estou cercado pela pandemia. Moro ao lado do HC, bem perto do IML e do estádio do Pacaembu, que virou um hospital de campanha. Estamos vivendo tempos muito sombrios que definitivamente vão ficar marcados na história. Eu só espero que uma vacina seja desenvolvida o quanto antes. E que meus parceiros, parentes e amigos e todas as outras pessoas do mundo superem essa desgraça a mais ileso possível. 

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