qualquer sintoma pode ser um sinal. Você é o que você cativa. desde que eu me lembro por gente, sentado, abraçado num cachorro em alguma sarjeta de concreto, as lembranças da semana passada passam diante dos meus olhos num cinema projetado pela luz do poste do outro lado da rua. A trama gira  em torno que um loser viciado, no caso eu, quando decide largar a porra da heroína e cuidar da carcaça entregue aos abutres que ele/eu havia me tornado. Confesso que pensei em suicídio nesses dias de céu de chumbo. de feridas abertas, ataques de bocejos e espirros e pânicos chiliquentos, diarreia e vômito, espasmos e dores nas juntas e nos músculos mais desconhecidos da anatomia, suadouro no colchão e frio congelante em randon, cinzeiro transbordando e seringas em reuso ao lado da colher favorita, aquela que retêm melhor o caldo durante a tremedeira no caminho entre o fogão e a pia. Preparar a dose era jogo rápido. A ansiedade pra acabar com a noia fazia com que tudo funcionasse metodicamente, ao contrário de tudo o que vc ja tivesse se esforçado muito pra fazer qlquer outra coisa.
Dai sabia que precisava ir pra Portugal fazer uma turnê e que a síndrome de abstinência ia acertar que nem scania, depois de 15 dias de uso ininterrupto. Eu sabia que entrar em cena assim seria uma espécie de suicídio. Antes de entrar no avião dei uma talagada no braço esquerdo e vim capotado boa parte da viagem. A treta começou após o primeiro ensaio. Encontrei uns parças na cidade que pra comemorar minha chegada simplesmente jogaram 2g de um pó pesada. Caímos prum inferninho que tinha uma banda mexicana de punk chamada Las Pipas de La Paz tocando. A breja era cara e o banheiro imundo, as pessoas estavam bêbadas e drogadas, pelo que me lembro em flashes. Lembro de um cabeludo me oferecendo muito cocaína no mijador também, extrapolando. Assim, cheirei uma carreira a cada 10 minutos, calculo. Inevitavelmente meu maxilar entrou em colapso e passou a tentar comer um xsaladas imaginário equilibrado no meu ombro. conversar com minha camarada de cena, que insistia em falar comigo, era uma tarefa constrangedora. Para resolver lembrei que tinha um comprimido de dyazepan jogado para emergências na minha jaqueta. Dropei sem pensar nas consequências com uma golada de cerveja. Bati cabeça ate de manhã e fui tentar comprar mais pó com um senegalês. Acabei tomando um cambau. Clássico. Viciado é foda.
Consegui dormir por volta das 11h da manhã e às 13h acordei pra passar dois gerais antes da estreia ás 21h. Acordei numas, porque ainda tava bêbado. Meu nariz eram dois buracos inflamados e eu mandava rapé tsunu numas de tentar acordar. Isso só contribuiu pra me foder mais, já que o efeito é simplesmente o contrário. No teatro português tudo era muito cordial e profissional e eu tive que enfrentar a parada na hombridade e não demonstrar que eu estava completamente transtornado. A abstinência da herô dava os primeiros sinais ja que o efeito das drogas e do álcool estavam escasseando. A tremedeira e o suadouro voltaram a me assombrar. A ansiedade chegou a níveis insuportáveis. Eu não entedia que merda do caralho estava acontecendo. Era uma desgraçada de um ressaca brutal punk rock nacional.
O horário da estreia se aproximava e meu coração parecia um cachorro louco latindo dentro do meu peito. Eu desejava estar morto e tentava segurar a diarreia alcoólica que me assolava a cada 20 minutos. A apresentação estava lotada. Mas tudo correu nos conformes. Suei e fiquei extremamente vermelho e com as veias saltadas. Fiz um esforço enorme pra cumprir a missão mas cheguei ao final vivo.
Durante 10 dias em Lisboa me apresentei 8 vezes. Meu corpo ficou moído, minha mente fritou como um ovo numa frigideira. Cheirei cocaína falsa, arrumei briga de manhã num bar no Cais do Sodré com um português felizberto que merecia uma surra, mas fiquei receoso de problemas com a lei. Dormi umas 20 horas somando todas as noites. Me diverti como um cão sem sono.
Ainda dei um pulo em Berlin. Onde o álcool e o speed foram oferecidos em baldes. Senti que meu corpo poderia colapsar. Mas um turista é, antes de tudo, um forte. E assim fui pra Munich onde relaxei e andei pela cidade, com pouca erva no bolso e muitos sonhos de um dia morar na Alemanha.
Voltar pra casa é sempre um desespero.

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