Refluxo e gastrite lancinantes me acordam cedo esses dias. Durmo em média 3h por noite. Um caldo espesso sobe do meu estomago que se transforma em espuma na minha garganta como uma garrafa de cerveja quente aberta num momento inoportuno. Faço o balanço anual contando quantas vezes tive problemas com o polícia e quantas vezes visitei um hospital por alguma merda que cometi contra mim num momento de acesso de fúria. Pensando por esse lado, 2018 foi tranquilo. Já que estou velho e fora de forma. Foi um ano de decepções, fracassos e isolamento. Comecei trabalhando em alguns projetos que fui convidado, até aí me sinto mais tranquilo, pois só preciso chegar na hora e entrar em cena. Realizei uma expo que me consumiu madrugadas chapados com as costas encurvadas na prancha. A São Paulo Fantasma talvez tenha sido meu plano mais organizado e foi montado sem grandes estresses, sendo que no final vendeu mais do que esperado, graças a ajuda da minha namorada, que esteve presente e me ajudou de todas as formas e da equipe enxuta que costumo trabalhar sempre. 
O segundo semestre entrou com minha produção mais recente. Um texto inglês que fugia um pouco do realismo cru das produções anteriores que trabalhei com o grupo. Na febre de me movimentar e colocar algo na fornalha sem estudar melhor o proposto foi um vacilo. Ao mesmo tempo eu estava esgotado por começar novamente o meu famigerado esquema de produção que já vinha dando sinais de desgaste, afinal a parada é inteira independente, sem apoio, sem patrocínio, sem leite ruanê. O processo foi cansativo e cheio de falhas por falta de conversa e planejamento. Minha grana escoou pelo linóleo grudento. Estreamos a peça sem assessoria de imprensa e a temporada funcionou na duas primeiras semanas, mas depois entrou em declínio, com apresentações canceladas por falta de público, voltando a pegar somente na semana final. Nem minha família ou amigos foram assistir esse fracasso de público e recorde de ausência. Não tenho problema em entrar em cena com palco vazio. Pelo contrário, me sinto mais confortável até, mas não dá pra negar que após dias seguidos com público minguado e ressacas homéricas, a sensação de que eu tinha abortado uma peça me dominou e eu apenas tentava encontrar entusiasmo para trabalhar. O fato é que depois de 7 anos na pegada anarco-punk de cuidar de bar que minha vida se tornou quando mudei de lado no balcão estavam pesando na minha carcaça. Voltei a acordar sujo, com a casa quebrada e os cinzeiros transbordando.  
Na sequencia essa mesmo casa foi invadida e roubada. E eu entrei na paranoia que a hora tinha chegado. O fim. Eu precisava matar o esquema. Ou aconteceria o contrário. Preciso sair  da rotina e desse conforto mundano. Romper a sociedade foi muito difícil. Não sei se isso tem algo a ver com essa a depressão e a gastrite que vem me corroendo esses dias. Eu sei que as coisas vão mudar e eu vou precisar de disciplina para encontrar algo entusiasmante para começar e terminar. 
São tantas possibilidades que tudo só depende de mim. Por isso decidi me exercitar criando essa página. Com a gradual morte da internet, algo que vinha tomando meu tempo e paciência nesses períodos de eleição, decidi sair facebook, afinal sempre que visitava aquela porcaria me sentia entrando num banheiro de rodoviária, evitando contato visual e respirando apenas pela boca.
Espero que eu consiga me mexer o mais rápido possível. Encontre algo que me tire desse marasmo paulistano. Não tenho planos. Apenas algumas ideias interessantes que estão engatinhando, mas que tem enorme potencial. A treta maior é a total falta de noção sobre o que vai acontecer no país. O próximo ano já começa com duas peças em que vou pisar em palcos diferentes na cidade. Isso em empolga. Eu sinta falta do teatro como uma droga. E em certos momentos percebi que esse sentimento estava enfraquecendo . Mas isso acontecia comigo antes de pisar no palco, depois a bagaça me dominava e por mais podre que estivesse, ali em cena era a única hora do dia que eu me sentia livre e ativo.
Agora chega. Só espero que pra 2019, meu estomago acalme e eu volte a enxergar o mundo com cores mais vibrantes, como numa viagem de ácido bom.


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